Laticínios: O alimento dos deuses

Há uma grande controvérsia sobre o leite ser saudável ou não.

O que as pessoas e muitos profissionais de saúde concluem muitas vezes é receber uma mensagem pronta sem avaliarem corretamente essa posição.

Não se pode ser simplista nas conclusões.

Evoluímos consumindo leite, sem problemas, o que foi muito importante para a nossa espécie.

Porém, precisamos entender que surgiram diversos fatores que foram distorcendo esse alimento e/ou o seu entendimento.

Há cerca de 5 mil anos, as vacas europeias (Taurinas), sofreram desnaturação, passando a produzir somente o leite A1, diferente das vacas zebuínas, que sempre produziram e continuam até hoje, a produzir o leite A2, como todos os mamíferos o fazem.

Pelo fato de usarmos muitas vacas europeias (leite A1), que eram conhecidas como leiteiras, tivemos essa influência, o que alterou também várias espécies de leite A2, pelos seus cruzamentos, para se aumentar a produção de leite.

Nos últimos 150 anos aproximadamente, começamos a ingerir progressivamente produtos alimentares com alta concentração de gorduras vegetais, alimentos refinados e finalmente industrializados, causando um aumento calórico de 1% da nossa dieta de ácido linoleico (ômega 6) para atualmente, mais de 40%.

Isso por sí só, gera disbiose intestinal, somado a outros fatores causadores disso como:

– estresse

– água clorada

– produtos antibactericidas

– alimentos refinados industrializados

– carnes de animais confinados que se alimentam de ração rica em linoleico (ômega 6).

– antibióticos, anti-inflamatórios

– estatinas, protetores gástricos

Isso causa disbiose intestinal, cada vez mais presente nas pessoas no mundo moderno.

Com isso, apresentam “alergias e intolerâncias”, cujo causador e a falta de saúde do intestino.

Isso leva a intolerância ao glúten, ao leite de vaca.

Digestibilidade dos laticínios: diferenças entre as betacaseína A1 e A2

A intolerância e sensibilidade dos laticínios tem se tornado uma questão comum, afetando milhões de pessoas e levando muitos a evitarem esse alimento, apesar de perderem muitos nutrientes vitais e benefícios para a saúde.

Mas o que fazer com essas dificuldades de consumo desses superalimentos como leite, queijo e iogurte ?

Para isso, é necessário entender a diferença entre a variantes A1 e A2 da proteína beta caseína encontrada nos produtos lácteos.

Há 2 tipos principais de proteína:

– caseína (responsável por 80% do total de proteínas)

– whey (cerca de 20%)

A proteína caseína

Das duas principais proteínas do leite, a caseína na verdade é a que tem mais benefícios. Melhora o metabolismo, protege contra estresse e reduz a absorção de triptofano.

Além disso, tem efeito anti estresse, pois protege a atividade adrenocortical e produção de cortisol.

Entre as frações de caseína, há diversos subtipos, como alfa-caseína, beta-caseína e kappa-caseína.

A mais dominante é a beta-caseína, representando 40% do total da proteína do leite.

Porém, há 2 variantes principais da proteína beta-caseína: A1 e A2.

A diferença entre elas é um simples aminoácido na sequência dos 209 aminoácidos.

A variante A1, o aminoácido na posição 67 é a histidina, enquanto na variante A2 é a prolina.

Impacto digestivo da beta-caseína A1 e A2

Apesar de ser uma mudança pequena na sequência de aminoácidos, tem implicações significativas em como são processados durante a digestão.

A prolina, encontrada na variante A2, cria uma forte ligação que torna a proteína difícil de degradar nessa localização.

Por outro lado, a histidina encontrada na variante A1, forma uma fraca ligação, permitindo que a beta-caseína seja mais facilmente quebrada nesse ponto.

Com isso, libera um peptídeo chamado beta caseomorfina 7 (BCM7).

Alguns indivíduos tem mais dificuldade de digerir e degradar esse peptídeo BCM7, o que causa distúrbio gastrointestinal e efeitos indesejados.

Fontes de A1 e A2

A diferença dessas variantes, depende do gado.

O gado de origem taurina europeu, produz a beta-caseína A1.

Já o gado de origem Indiana como os zebuínos, e outros como Guernsey e Jersey contém à princípio exclusivamente a variante A2.

O leite da mulher só contém a forma A2, assim como todos os outros mamíferos.

Isso torna o produto mais adequado à digestibilidade humana.

Há uma crescente pesquisa explorando o potencial de saúde e diferenças de digestibilidade entre laticínios A1 e A2.

O que fica evidente, é que com o leite A2 há melhoras nos sintomas gastrointestinais e de bem estar geral.

Exemplificando, um estudo publicado em 2019 na Nutrition Journal aonde mostrou  o impacto da beta caseína A1 e A2 no intestino.

Avaliaram 600 adultos que consumiram A1 e A2 por 2 semanas.

Observou-se que o leite A2, tem reduzidos marcadores de inflamação intestinal, quando comparado com o leite A1.

Quando se consume o leite A1, há formação de BCM7, que é o grande contribuidor dos sintomas gastrointestinais.

Intolerância à lactose

Mesmo os indivíduos com intolerância à lactose ou outra sensibilidade aos laticínios, aceitam melhor o leite A2 do que o leite A1.

Portanto, nesses casos, é fundamental avaliar disbiose intestinal.

Nesta condição certamente haverá o comprometimento da habilidade corpórea para digerir lactose.

Corrigindo esses desequilíbrios, muitas pessoas conseguem reintroduzir o leite  A2 em suas dietas.

Coalho natural ou sintético ?

Algumas pessoas apresentam problemas digestivos por laticínios causados por produtos contidos no coalho microbiano, um coagulante alternativo usado na confecção de queijos, em vez de coalho animal tradicional.

Isso ocorre especialmente em queijos da América do Norte, que usam uma versão modificada geneticamente chamada FPC (Chymosin produzida por fermentação).

Neste caso, o problema pode ser toxicidade, pois como é à base de elementos traços de bactérias modificadas geneticamente, podem gerar problemas digestivos, pela reação alérgica que esses produtos causam.

Referências bibliográficas:

– Journal of Agricultural and Food Chemistry, Vol 63/Issue 43, November 13, 2014

– Nutrients. 2020 Oct; 12(10): 3040

– Critical Reviews in Food Science and Nutrition, 61(21), 3661–3707

– Nature Communications 10, 1286 (2019)

– Indian J Exp Biol. 2003 Apr;41(4):367-9

– Int J Neuropsychopharmacol. 2018 May; 21(5): 473–484

– J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2019 Sep;69(3):375-382

– Front. Nutr., 27 April 2022, Sec. Nutrition and Food Science Technology Volume 9 – 2022

– Ray Peat, Milk in context: allergies, ecology, and some myths

– Test Biotech, November 18, 2021, Genetically engineered bacteria put food safety at risk

– Center For Food Safety, GE Food & Your Health

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